Título: A Mecânica do Coração
Autor: Mathias Malzieu
Editora: Contraponto
Páginas: 144
Sinopse:
Autor: Mathias Malzieu
Editora: Contraponto
Páginas: 144
Sinopse:
"Edimburgo, 1874. Jack nasce no dia mais frio do mundo, com o coração... congelado. A Drª Madeleine, a parteira (segundo alguns, uma bruxa) que o trouxe ao mundo, consegue salvar-lhe a vida instalando um mecanismo - um relógio de madeira - no seu peito, para ajudar o coração a funcionar. A prótese resulta e Jack sobrevive, mas com uma contrapartida: terá sempre de se proteger das sobrecargas emocionais. Nada de raiva e sobretudo nada de amor. A Drª Madeleine, que o adopta e vela pelo seu mecanismo, avisa: «o amor é perigoso para o teu coraçãozinho.»
Mas não há mecânica capaz de fazer frente à vida e, um dia, uma pequena cantora de rua arrebata o coração - o mecânico e o verdadeiro - de Jack. Disposto a tudo para a conquistar, Jack parte numa peregrinação sentimental até à Andaluzia, a terra natal da sua amada, onde encontrará as delícias do amor... e a sua crueldade.
Um conto de fadas para adultos, ao estilo de Tim Burton ou Lewis Carroll."
Mas não há mecânica capaz de fazer frente à vida e, um dia, uma pequena cantora de rua arrebata o coração - o mecânico e o verdadeiro - de Jack. Disposto a tudo para a conquistar, Jack parte numa peregrinação sentimental até à Andaluzia, a terra natal da sua amada, onde encontrará as delícias do amor... e a sua crueldade.
Um conto de fadas para adultos, ao estilo de Tim Burton ou Lewis Carroll."

Este livro foi proposto pelo meu professor de Desenho e comunicação visual, para lê-lo e ilustrá-lo. Podia-mos Ilustrá-lo com 20 a 26 desenhos, o livro foi dividido pela turma (12 alunos) e a parte em que nos calhou tinha de ser passado para o computador, em que depois na Disciplina de Oficina Gráfica, realizava-mos a paginação do livro e colocava-mos os desenhos no livro.
O texto em baixo é a minha parte do livro.
- Ontem á noite estavas esquisito, até me deixares ir embora sem me dizer adeus, sem um beijo, nada. Estavas a mexer no teu relógio, hipnotizado. Até tive medo de que te cortasses com os ponteiros.
- Desculpa, estava a tentar a uma coisa para que tu ficasses mais algum tempo, mas não funcionou.
- Nem podia funcionar. Não faças isso comigo. Eu amo-te, mas sabes muito bem que não posso ficar até de manhã.
- Eu sei, eu sei… Foi Justamente por isso que tentei…
- Aliás, podias tirar o relógio quando estamos juntos. Fico cheia de Nódoas negras quando…
- Tirar o relógio? Não posso!
- Claro que podes! Eu tiro a maquilhagem quando vou contigo para debaixo dos lençóis!
- Sim, de vez em quando! Mas ficas tão bonita toda nua com os olhos maquilhados. Vejo-lhe uma ligeira luminosidade por entre as pestanas. – Mas eu não posso tirar o relógio, não é nenhum acessório!
Ela responde com um grande sorriso, como se dissesse «não acredito em metade do que dizes….».
- Sabes, gosto da maneira como acreditas nos teus sonhos, mas por vezes tens de ter os pés mais assentes na terra, tens de crescer. Não podes passar a vida com uns ponteiros a saírem-te do casaco – declara ela em tom de professora.
Nunca, desde o nosso primeiro encontro, estive tão longe dos seus braços no mesmo quarto.
- Posso sim. É assim mesmo que funciono. Este relógio faz parte de mim, é ele que faz bater o meu coração. Para mim é vital tenho de viver com ele. Tento servir-me do que sou para transcender as coisas, para existir. Exactamente como tu no palco, quando cantas. É a mesma coisa.
- Não é nada, seu tonto! – Diz ela, deslizando as portas dos dedos pelo meu mostrador.
A ideia de que ela pense que o meu relógio é um acessório gela-me o sangue. Não conseguiria amá-la se achasse que o seu coração era falso, quer fosse de vidro, de carne ou de casca de ovo.
- Fica com ele, se queres, mas cuidado com os ponteiros…
- Acreditas cem por cento em mim?
- Direi setenta por cento, por agora. Compete-te mostrar-me que posso ir aos cem por cento, little Jack…
- Faltam trinta por cento porquê?
- Porque eu conheço os homens.
- Eu não sou «os homens».
- Achas?
- Acho.
- És um mentiroso nato! Até o teu coração é uma mentira!
- A única coisa verdadeira em mim é o meu coração!
- Estas a ver? Achas sempre por cair de pé. Mas também gosto disso em ti
- Eu não quero que gostes «disso em mim», quero que gostes «de tudo em mim».
As suas pálpebras em forma de sombrinhas pretas piscam ao ritmo do tiquetaque do meu coração. Várias caretas divertidas e duvidosas desfilam-lhe pelo canto de uns lábios que não beijo há muito. As palpitações aceleram sob o meu mostrador, um formigueiro bem meu conhecimento.
Miss Acácia sorri e tanta afastar-me de pensamentos negativos.
-Amo-te inteirinho conclui ela, pousando estrategicamente as mãos em mim. Fico sem fôlego, os pensamentos diluem-se-me no corpo e a pequena cantora apaga a luz.
O seu pescoço esta polvilhado de grãos de beleza minúsculos, uma verdadeira constelação que lhe desde até aos seios. Transformo-me no astrónomo da sua pele, mergulho nas suas estrelas. a sua boca entreaberta põe-me vesgo, sinto bolhas no sangue e faíscas entre as pernas. Das mãos escorre-lhe uma electricidade suave. Aproximo-me mais ainda.
- Para aumentar as minhas estatísticas de confiança, vou-te dar a chave do meu coração. Não poderás levá-la contigo, mas poderás fazer o que quiseres e exactamente quando quiseres. Tu és a chave que me abre por completo e, como tenho plena confiança em ti, vais pôr os óculos e vais-me deixar olhar-te para os olhos através deles. De acordo?
A minha pequena cantora aceita, lança os cabelos para trás das costas e os olhos brotam-lhe do rosto de corça. Em seguida, Miss Acácia encavalita no nariz uns dos óculos de Madeleine, inclinando a cabeça para o lado. Oh Madeleine, ias ficar furiosa se visses o que estou a ver! Podia dizer-lhe que a acho sublime, mas ela não ia acreditar, por isso prefiro acariciar-lhe a mão. Começo a dizer a mim mesmo que, ao ver-me tal com sou, talvez ela me ache menus a seu gosto e fico angustiado.
Pouso a chave na sua mão direita. Fico nervoso e o meu coração começa a fazer um barulho de comboio em miniatura.
- Porque é que tens dois buracos?
- O da Direita é para abrir e o da esquerda é para dar corda.
- Posso abrir?
- Podes.
Miss Acácia mete delicadamente a cave na ranhura direita do meu coração. Fecho os olhos e depois abro-os, como quando nos beijamos longamente, para observar o «incêndio».
Ela tem os olhos fechados, maravilhosamente fechados. Trata-se de um momento de uma serenidade espantosa. Miss Acácia agarra suavemente numa engrenagem com o polegar e o indicador, sem lhe abrandar o funcionamento. Uma maré súbita de lágrimas submerge-me. Ela abranda o subtil amplexo e as torneiras da melancolia fecham-se. Miss Acácia acaricia uma segunda engrenagem – ter-me-á feito cócegas no coração? Rio-me ligeiramente, um sorriso sonoro apenas. Então, sem largar a segunda engrenagem que tem na mão direita, a minha pequena cantora volta á primeira com a mão esquerda e quando me beija, com força, tem o efeito da fada azul, a do Pinóquio, mas mais verdadeira. Só que não é o nariz que me cresce. Ela sente-o e acelera os movimentos, aumentando progressivamente a pressão nas minhas engrenagens. Os sons escapam-me de boca sem que os possa evitar. Fico surpreendido e incomodado, mas sobretudo excitado. Ela serve-se das minhas engrenagens como se fossem potenciómetros e os meus suspiros transformam-se em gemidos.
- Apetece-me tomar banho – murmura ela.
Faço-lhe sinal que sim. Alias, não vejo porque não. Levanto-me de um salto, corro para a casa de banho e ponho a correr um banho bem quente.
Mexo-me suavemente para não acordar Brigitte. A parede do meu quarto dá para o quarto dela, ouço-a tossir.
Os reflexos prateados dão a impressão de que o céu e as estrelas acabam de cair na banheira. É maravilhoso como uma torneira vulgar é capaz de verter tantas estrelas delicadas no silêncio da noite. Entramos suavemente na água para não fazer transbordar esta delícia. Somos duas aletrias estreladas em formato grande. E fazemos o amor mais lento do mundo, apenas com as línguas. Com a água a marulhar, dir-se-ia que estamos no ventre um do outro. Raramente senti uma coisa tão agradável. Sussurramos gritos. Temos de nos conter. De repente ela levanta-se, vira-se e transformamo-nos em dois animais da selva.
Acabo por me desmoronar por completo, como se acabasse de morrer num western, e ela começa a gemer lentamente. O cuco toca languidamente. Oh, Madeleine…
Miss Acácia adormece e eu ponho-me a observá-la. O comprimento das suas pestanas maquilhadas reforça a ferocidade da sua beleza. A minha pequena cantora é tão sedutora que pergunto a mim próprio se a profissão de cantora não a terá condicionado, ao ponto de assumir a pose de um quadro imaginário, mesmo a dormir. Miss Acácia parece um quadro de Modigliani, um quadro de Modigliani que ronrona baixinho.
A sua vida de pequena cantora cada vez mais famosa retoma o seu curso no dia seguinte, com o seu conjunto de pessoas que, como fantasmas de carne e osso, se arrastam á sua volta sem uma actividade precisa.
Esta fauna toda perfumada assusta-me mais do que uma matinha de lobos em meia-noite de lua cheia. È tudo falso, as conversas são mais ocas do que uma cripta funerária. Acho-a corajosa por conseguir nadar neste turbilhão de ouropel e lobo.
Um dia ainda a mandaram á lua para experimentar as reacções dos extraterrestres ao erotismo. Miss Acácia cantará, dançará, responderá as perguntas dos jornalistas da lua, posará para as fotografias e acabará por nunca mais voltar. Por vezes digo a mim próprio que só falta Joe no papel de cereja bexigosa em cima do bolo podre.
Na semana seguinte, Miss Acácia canta em Sevilha. Pego na prancha de rodas fabricada por Méliés e cavalgo as montanhas vermelhas para ir ao encontro dele no seu quarto de hotel, no fim do espectáculo.
A caminho, o pombo-correio entrega-me mais uma carta de Madeleine. Algumas palavras apenas, sempre as mesmas – palavras que não parecem dela. Gostava tanto de receber mais…
Gostava tanto que ela conhecesse Miss Acácia. Evidentemente, Madeleine teria medo por causa do amor, mas a personalidade da minha pequena cantora agradar-lhe-ia. Imaginar estas duas lobas a conversar é um sonho doce que não cessa de me embalar.
No dia a seguir ao concerto passeamo-nos em Sevilha como dois namorados. Está bom tempo, um vento tépido acaricia-nos a pele. As nossas mãos, desajeitadas, não conseguem fazer as coisas das pessoas normais em pleno dia. À noite, teleguiadas pelo desejo, conhecem-se na perfeição, mas de dia perecem quatro mãos esquerdas a quem pediram para escrever a palavra «bom-dia». Somos uns desastrados dos pés á cabeça, parecemos um casal de vampiros às compras no mercado sem óculos de sol. O cúmulo do romantismo. E para nós, abraçarmo-nos tranquilamente nas margens do Guadalquivir, a meio da tarde, é o cúmulo do erotismo.
Sobre esta felicidade simples e evidente paira, no entanto, uma nuvem de ameaças. Sinto-me orgulhoso dela. Nunca senti tanto orgulho na minha vida, mas à medida que o tempo passa, os olhares extasiados dos machos da minha espécie tornam-me cada vez mais ciumento. Tranquilizo-me dizendo a mim mesmo que, sem óculos, ela é capaz de não ver este rebanho de homens mais belos do que eu. No entanto sinto-me só no meio desta multidão cada vez maior que vem aplaudi-a, ao passo que eu tenho de me restringir ao meu papel de estrangeiro e regressar sozinho às minhas águas-furtadas sombrias.
Tanto mais só quanto ela não aceita a ideia de que sofro. Acho que ela continua a não acreditar no meu relógio-coração.
Ainda não lhe expliquei que com este coração improvisado o meu comportamento pode ser tão perigoso como o de um diabético que se empanturra de bolos de manhã à noite. E não sei se lhe quero explicar. De acordo com as teorias de Madeleine, estou permanentemente às portas da morte.
Estarei à altura? O meu velho berloque, o meu coração, aguentar-se-á?
E, para tornar tudo mais complicado, Miss Acácia é pelo menos tão ciumenta como eu. Franze as sobrancelhas e quase que parece uma leoa quando uma rapariga bem penteada passa por mim, mesmo fora de comboio-fantasma. A princípio sentia-me lisonjeado, achava-me capaz de voar por cima de todos os obstáculos. As minhas asas eram novas, tinha a certeza de que ela acreditava em mim, mas ao descobrir que me achava mentiroso, senti-me fragilizado. No fundo da minha solidão nocturna, destruí também a minha autoconfiança.
As coisas entre nós estão cada vez mais difíceis.
10
Um dia, um homem estranho apresentou-se no comboio-fantasma para se candidatar ao cargo de assustador. Foi nesse dia que as coisas se começaram a complicar mesmo.
O homem é grande, muito grande. A cabeça parece ultrapassar o tecto do comboio-fantasma. O olho direito está escondido por baixo de uma venda negra e o olho esquerdo escrutina o Extraordinarium como a luz de um farol percorre o mar, até que pára na silhueta da Miss Acácia. E não a deixa mais.
Brigitte, que não acredita que eu alguma vez consiga assustar seja quem for, contrata-o imediatamente e eu fico sem trabalho. Acontece tudo muito depressa, demasiado depressa para mim. Vou ter de pedir a Méliès que me acolha no seu ateliê. Não sei como a minha preciosa intimidade com a minha pequena cantora vai continuar nestas condições.
Miss Acácia canta esta noite num teatro da cidade. Como habitualmente, deslizo para a última fila da sala depois da primeira canção. O novo assustador está sentado na primeira fila.
O homem é tão grande que tapa a vista a metade da sala. Eu, pelo menos, não vejo nada.
Aquele olho fixo nos de Miss Acácia faz-me suar. O homem não desvia o farol durante a noite toda, nem sequer depois do concerto. Apetece-me dizer ao lampadário ambulante que desapareça, mas contenho-me. O meu coração, esse, não tarda a esganiçar-me nu m lá menor um pouco falso. Toda a sala se vira e desata a rir. Alguns perguntam-me como é que eu faço aqueles sons bizarros e um deles diz-me:
- Eu conheço-o! Você é o tipo que faz rir toda a gente no comboio-fantasma!
- Desde ontem que não trabalho lá.
- Ah, que pena… Olhe que esse seu truque é muito divertido.
Parece que voltei ao pátio da, desapareceu a confiança adquirida nos braços de Miss Acácia. Todo o meu ser se desloca suavemente.
Depois do espectáculo é difícil não desabafar com a minha amada, que exclama:
- Aquele matulão? Pfff…
- Ele parece hipnotizado por ti.
- Passas a vida a falar de confiança e agora vens-me falar daquele pirata zarolho?
- Não te estou a acusar de nada. Ele é que não te larga, parece um tubarão.
Sinto-me desestabilizado porque, conhecendo-a como conheço, tenho a certeza da que o pirata vai tentar seduzi-la. Alguns olhares não enganam, mesmo quando são lançados por um só olho. Pior, a intensidade é a dobrar. As coisas complicam-se a sério quando o matulão zarolho se aproxima de nós e nos diz:
- Não me reconhecem?
Um arrepio percorre-me a coluna vertebral. È uma sensação, que conheço bem e que detesto acima de tudo, que não tinha desde os tempos de escola.
- Joe! Que fazes aqui? – exclama Miss Acácia, embaraçada.
- Fiz uma longa viagem para vos encontrar aos dois, uma viagem muito longa…
Ele fala lentamente. Á parte do olho e de alguns pêlos na cara, pouco mudou. è estranho não o ter reconhecido imediatamente. Não consigo convencer-me de que Joe está mesmo aqui, á minha frente. Repito para mim próprio, para me encorajar: «Não estas no sítio certo, Joe, vão voltar rapidamente para o fundo das tuas brumas escocesas.»
- Conhecem-se? – pergunta Miss Acácia.
- Andámos juntos na escola. Somos, digamos… velhos conhecidos – responde, ele sorrindo
Estou petrificado de ódio. Sinto-me capaz de lhe vazar o segundo olho só para o mandar para o sítio de onde ele veio, mas tento manter a calma por causa da minha pequena cantora.
- Precisamos de ter uma conversa – diz ele, fixando-me com o olho frio.
- Amanha ao meio-dia, à frente do comboio-fantasma.
- Muito bem. E não te esqueças de trazer a cópia das chaves – responde ele.
Na mesma noite, Joe instala-se no meu antigo quarto e vai dormir na cama onde Miss Acácia e eu tivemos os nossos primeiros enlevos de paixão, passear pelos corredores onde nos beijámos tantas vezes, ver os restos dos nossos sonhos nos espelhos… Da casa de banho onde nos escondemos, ouvimo-lo a instalar-se.
- Joe é um dos teus antigos namorados?
- Namorado? Eu era uma criança. Quando o vejo agora, pergunto a mim mesma como pude interessar-me por um rapaz como ele!
- Também eu me faço essa pergunta… E, já agora, faço-a a ti!
-Ele era mais ou menos o chefe da escola, impressionava toda a gente, e eu era muito nova, mais nada. É uma coincidência estranha conhecermo-lo os dois!
- Acho que não!
Não quero contar-lhe a história de olho, tenho medo de que ela me tome por um maníaco perigoso. Sinto a armadilha a fechar-se inexoravelmente à minha volta. Sinto-me obcecado pelo facto de Joe estar de regresso e por não saber como lidar com a situação.
- Porque é que ele te pediu a cópia das chaves?
- Brigitte Heim acaba de o contratar para o comboio-fantasma. A partir desta noite, fica também com o meu quarto."






